Quando a expansão da Copa do Mundo para 48 seleções foi anunciada, boa parte da crítica especializada apontou o risco de o torneio se encher de "sacos de pancadas" - equipes fracas destinadas a sofrer goleadas e desequilibrar os grupos. Algumas dessas previsões até se confirmaram em 2026. Mas o formato ampliado também abriu espaço para histórias improváveis, e nenhuma foi tão marcante quanto a de Cabo Verde, arquipélago do Atlântico com pouco mais de 550 mil habitantes que surpreendeu o mundo ao lado de gigantes como Espanha e Argentina.
Sorteado no Grupo H junto da favorita Espanha, do bicampeão Uruguai e da Arábia Saudita - algoz da própria Argentina em 2022 -, Cabo Verde era apontado por quase todos os analistas como o time mais fraco da chave. Os Tubarões Azuis, no entanto, tinham outros planos. Enquanto muitos torcedores acompanhavam a movimentação das casas de apostas e discutiam favoritismos nos jogos de jackpot e em outras plataformas de entretenimento esportivo, a seleção africana escrevia, dentro de campo, um dos capítulos mais emocionantes do Mundial.
Uma zebra que não era zebra
Na estreia contra a Espanha, o goleiro Vozinha, de 40 anos, se tornou o símbolo da resistência cabo-verdiana. Seguro e com grande leitura de jogo, ele garantiu o 0 a 0 que abriu a pontuação histórica da equipe em Copas do Mundo. Na sequência, veio o empate em 2 a 2 com o Uruguai e outro resultado igual diante da Arábia Saudita. Três pontos depois, Cabo Verde terminou na segunda posição do grupo, eliminando o próprio Uruguai e avançando à fase eliminatória em sua primeira participação na história.
O duelo com a Argentina campeã
O adversário seguinte era a Argentina de Lionel Messi, autor de seis gols até aquele momento do torneio. Mesmo com a abertura do placar argentina, os cabo-verdianos buscaram o empate e levaram a partida à prorrogação, quando Sidny Lopes Cabral marcou um gol de types espetacular para igualar o confronto outra vez. A Argentina só confirmou a vitória por 3 a 2 aos seis minutos do segundo tempo extra, em lance que contou com desvio da própria defesa cabo-verdiana. Cabo Verde caiu de forma honrosa, mas deixou claro que não era simplesmente uma zebra: era uma equipe organizada, disciplinada e competitiva.
Raízes recentes, ambição antiga
A trajetória ganha ainda mais peso quando se observa a história recente do país. Independente de Portugal apenas em 1975, Cabo Verde só se filiou à FIFA em 1986 e viveu décadas de tentativas frustradas em Eliminatórias africanas e mundiais. A virada veio com o trabalho do técnico Pedro Leitão Brito, o Bubista, que desde 2020 investiu em uma base de jogadores da diáspora cabo-verdiana em Portugal e na Holanda, aliada a disciplina tática e times bem postos em campo. As quartas de final da Copa Africana de 2023 já haviam sinalizado o crescimento; a classificação para o Mundial de 2026, obtida no ano em que o país completou 50 anos de independência, coroou o processo.